20 de setembro de 2026 09:39

MPF denuncia esquema de cassiterita ilegal que abasteceu gigantes globais

O Ministério Público Federal (MPF) denunciou um esquema de extração e comercialização ilegal de cassiterita na Amazônia que teria abastecido grandes empresas globais de tecnologia e outros setores industriais. A investigação aponta que a mineradora brasileira White Solder, com sede em Ribeirão Preto (SP) e filiais em Manaus (AM) e Ariquemes (RO), liderava a rede criminosa responsável por movimentar aproximadamente R$ 200 milhões entre 2020 e 2025. A empresa é acusada de receptação, refino e “esquentamento” de minério extraído de terras indígenas, especialmente na Terra Yanomami, em Roraima.

Segundo os procuradores, o esquema envolvia a falsificação de documentos e notas fiscais emitidas por cooperativas de fachada, permitindo que toneladas de cassiterita fossem inseridas na cadeia global de fornecimento com aparência de legalidade. Relatórios da Polícia Federal indicam que apenas entre maio e agosto de 2021 foram escoadas clandestinamente mais de 525 toneladas do minério. O insumo refinado abasteceu multinacionais listadas em bolsas internacionais, revelando falhas graves nos sistemas de rastreabilidade e auditoria socioambiental.

A denúncia aceita pela Justiça Federal de Roraima inclui pedidos de reparação que somam R$ 1,7 bilhão, valor destinado a cobrir danos ambientais, patrimoniais e morais coletivos. Além disso, o MPF exige que empresas adquirentes comprovem a origem lícita do estanho utilizado em seus produtos, sob pena de responsabilização solidária. Entre as companhias citadas na investigação estão Apple, Microsoft, Amazon, Disney e Sony, além de empresas de outros setores como Caterpillar, PepsiCo e Colgate-Palmolive.

O esquema também teria explorado minerais estratégicos presentes nos rejeitos da cassiterita, como terras raras e columbita, essenciais para a indústria tecnológica e aeroespacial. Laudos da Polícia Federal confirmaram a presença de elementos como neodímio, tântalo e ítrio, reforçando o caráter lucrativo e sofisticado da operação criminosa. O impacto socioambiental foi severo: comunidades indígenas relataram aumento das invasões em seus territórios e destruição de áreas de preservação, incluindo o Parque Nacional dos Campos Amazônicos e o Parque Nacional Mapinguari, no Amazonas, onde mais de 44 hectares de floresta foram devastados.

A ação inédita do MPF busca não apenas responsabilizar os envolvidos, mas também pressionar por políticas públicas de rastreabilidade da cassiterita, já que atualmente não existe no Brasil um sistema capaz de monitorar a origem do minério. Enquanto isso, a investigação segue ampliando o alcance das denúncias, que envolvem empresários, operadores logísticos e empresas de fachada ligadas ao esquema.

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