17 de agosto de 2026 19:33

A constância do encontro como fundamento da segurança psíquica

Introdução

A noção de apego seguro, amplamente discutida no campo da psicologia do desenvolvimento, encontra na psicanálise uma elaboração própria, ainda que não nomeada nos mesmos termos. Em vez de categorizar estilos de vínculo, a psicanálise se ocupa das condições psíquicas que permitem ao sujeito sustentar a relação com o outro sem vivenciá-la como invasiva ou ameaçadora.

Autores como Winnicott, Bion e Melanie Klein oferecem contribuições fundamentais para a compreensão de como experiências relacionais marcadas por continuidade, confiabilidade e sustentação podem favorecer a constituição de vínculos atravessados por maior segurança psíquica. Este artigo parte de uma experiência vivenciada no âmbito de um estágio em contexto institucional escolar, o que orienta tanto o recorte do relato quanto a posição teórica aqui adotada. O objetivo é elaborar esses processos, destacando a constância do encontro como operador central na possibilidade de aproximação do outro.

Relato de experiência em contexto institucional

Durante o estágio em um contexto institucional escolar, acompanhei uma criança de três anos de idade, que se apresentava, nos primeiros encontros, de forma tímida e retraída. Considerar a idade da criança mostra-se fundamental, uma vez que, nesse momento do desenvolvimento, a relação com o outro é profundamente mediada pelo corpo, pela presença do adulto e pela necessidade de continuidade e previsibilidade nos vínculos. A aproximação, nessa fase, não se organiza prioritariamente pela via da palavra, mas por gestos, movimentos e experiências corporais de proximidade ou afastamento. A relação da criança com os adultos era marcada por cautela, como se a aproximação exigisse tempo e condições específicas para se tornar possível.

O trabalho desenvolvido não se organizou a partir de intervenções diretivas, interpretações ou exigências de fala. Ao contrário, sustentou-se na manutenção de uma disponibilidade psíquica constante ao longo dos encontros, respeitando o ritmo da criança e oferecendo um espaço relacional estável.

Com o passar do tempo, a criança passou a se aproximar de maneira progressiva. Inicialmente por meio de gestos discretos, posteriormente buscando maior proximidade corporal, como segurar a mão ou se aproximar do colo. Em determinadas situações, manifestava gestos de afeto, como abraços, indicando uma ampliação de sua abertura relacional.

Essa aproximação não decorreu da aplicação de uma técnica específica, mas pareceu emergir da continuidade do vínculo e da possibilidade de experimentar o encontro como previsível e suportável. A relação sustentada ao longo do tempo favoreceu a constituição de um espaço relacional vivido como suficientemente confiável, no qual a criança pôde se aproximar sem se desorganizar.

Elaboração psicanalítica da experiência

A experiência descrita pode ser compreendida à luz da concepção winnicottiana de ambiente suficientemente bom. Considerando tratar-se de uma criança de três anos de idade, a necessidade de um ambiente relacional contínuo e previsível torna-se ainda mais central, uma vez que os recursos simbólicos encontram-se em constituição e a experiência do vínculo se organiza predominantemente pela via corporal e afetiva. Para Winnicott, a continuidade do cuidado e a adaptação sensível às necessidades do sujeito constituem condições fundamentais para a integração do self e para a construção de um sentimento de segurança psíquica. A constância do encontro, quando não intrusiva, possibilita que o sujeito esteja em relação sem vivenciar a proximidade como ameaçadora.

Nesse sentido, conforme assinala Zimerman, os efeitos do trabalho psicanalítico não se restringem ao momento interpretativo, mas se produzem, sobretudo, na qualidade da relação estabelecida e na posição sustentada do profissional ao longo do tempo, especialmente em contextos nos quais o sujeito ainda não dispõe de recursos simbólicos suficientes. Tal perspectiva permite compreender por que, na experiência relatada, a aproximação da criança não decorreu de uma ação técnica específica, mas da continuidade de uma relação vivida como confiável e previsível.

Bion contribui para essa compreensão ao formular a noção de função de continência, segundo a qual o outro é capaz de sustentar estados emocionais ainda não simbolizados. A manutenção de uma relação estável, sem urgência interpretativa, favorece a permanência no vínculo e a confiança no campo relacional, reduzindo a necessidade de defesas excessivas.

Já em Melanie Klein, a aproximação progressiva pode ser pensada como indicativa de uma diminuição da persecutoriedade interna, decorrente da introjeção de um objeto vivido como menos ameaçador. A possibilidade de proximidade e de investimento afetivo sugere a construção de uma relação na qual o outro deixa de ser experimentado predominantemente como fonte de angústia, tornando-se passível de investimento libidinal.

Ainda que a psicanálise não utilize o termo apego seguro, reconhece os efeitos de experiências relacionais que possibilitam ao sujeito sustentar a proximidade sem colapso psíquico, ampliando sua capacidade de estar em relação.

Considerações finais

O relato de experiência apresentado permite sustentar que a segurança psíquica não se constitui a partir de intervenções técnicas ou interpretações precoces, mas da constância de uma relação que se mantém ao longo do tempo. Para uma criança inicialmente retraída, a experiência de um encontro confiável pode operar como fundamento para a aproximação do outro e para a ampliação de sua capacidade relacional.

Ao enfatizar a constância do encontro como operador central, este artigo reafirma uma dimensão fundamental da perspectiva psicanalítica: é na continuidade da relação, mais do que na ação interpretativa, que se produzem condições para o surgimento da confiança e da segurança psíquica, inclusive em contextos institucionais e formativos, como o estágio escolar.

Maria Fernanda Corrêa Dias
21 anos
Estudante de Psicologia – Universidade de Sorocaba (UNISO

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